Na terra de honestos, quem é inadimplente é rei
Pedro é empresário e estudante de administração. Herdou a empresa do falecido pai e apesar de não ter formação, já ganha muito bem por conta dessa herança. É um homem inteligente, ou melhor, esperto. Ele não paga a faculdade. Sim, ele poderia pagar a faculdade, mas ele sabe que se ele não pagar o ano inteiro, ao final do ano fará um acordo com o departamento financeiro e receberá um desconto para quitar sua dívida. Pedro sabe que se beneficiará agindo dessa forma.
Luís é autônomo. Ele vende pinturas em feiras. Há meses em que vende muitas pinturas outros em que vende menos, mas sempre ganha o suficiente para viver de forma decente. Luís mora em uma decentíssima cobertura em Ipanema. Ele dá muitos “pulinhos” para conseguir morar nesse apartamento do qual não abre mão. Ele outro dia, gentilmente me deu uma dica sobre como economizar no condomínio. Luís não paga o condomínio o ano inteiro. Ao final do ano, assim como o Pedro, consegue um desconto para quitar sua dívida. Ele sabe que se beneficiará dessa forma. Ele passa o ano inteiro depositando na poupança o correspondente ao valor do condomínio e ao final do ano quando vai quitar a dívida, ele saca o montante com desconto e vejam só, além de ficar com a porcentagem que recebeu de desconto, ainda embolsa os juros do ano inteiro da poupança. Pelo prédio, ele vive para cima e para baixo choramingando fingindo que é duro e fazendo cara de coitado.
Antonio ganha uma média de R$ 800,00 por mês, porém não tem comprovação de renda. Mesmo assim, natal passado recebeu dois cartões de crédito, cada um com limite de R$ 400,00. Antonio encarou a aprovação do cartão como um presente de natal. Presente este que ele não tem a intenção de pagar. Já Mariana, irmã do Antonio, também é autônoma, mas ganha em média R$ 5 mil por mês. Na última vez que foi as Lojas American`s tentou fazer um cartão da loja, mas o cartão foi recusado. Mariana tinha intenção de pagar as contas do cartão.
Agora, vou contar histórias de indivíduos que não merecem benefícios.
Renata é uma pessoa correta, honesta. Um dia prestou serviço para Silvana. Silvana prometeu pagar o serviço após um mês. Não o fez. Nenhum um mês depois, nem dois nem três meses depois. Renata então enviou um email para uma lista de discussão exclusiva de profissionais de sua área. Sua intenção era perguntar aos colegas como agir nesses casos de “calote” e avisá-los para que não fossem vítimas dessa mesma pessoa. Renata foi criticadíssima por difamar a imagem da inadimplente Silvana. A imagem da caloteira deve ser protegida.
Amanda, ao contrário de Luís, quis pagar o condomínio de seu prédio adiantado o ano inteiro e pela atitude, esperava conseguir um desconto. Conversou com o síndico de seu prédio e sua resposta à proposta foi:
- “Não somos uma financeira.”
Renata ficou chocada com a resposta e acima de tudo, com a mentalidade. Ela precisou escrever uma carta para o conselho do prédio similar a esse texto para sensibilizar os membros do conselho e obter o tal desconto.
É por essas e por outras, que às vezes penso que o Brasil é mesmo o país dos inadimplentes, dos sem-terra, do pedinte que ganha mais do que uma doméstica, do pai que dá tudo ao filho drogado e só critica o filho trabalhador.
Acredito que temos que refletir sobre isso. Eu não concordo com esses valores e não gostaria que minha filha crescesse em um país retrógrado que ainda beneficia os errados e não os corretos.
Roberta Barroca
Jornalista, Intérprete e tradutora.
www.robertabarroca.com.br
OBS. – O tom da matéria é irônico.